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ComportamentoAjudaLuz aos pacientesSão José do Rio Preto, 1 de junho de 2008
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Orlandeli/Editoria de Arte |
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| Renata Fernandes
No dia 28 de abril deste ano a administradora Maria de Fátima Dias encaminhou uma carta ao Hospital da Lagoa do Rio de Janeiro para agradecer o sucesso de seu tratamento. Ela descobrira em junho de 2006 um nódulo na mama esquerda. Maria de Fátima relata que depois do susto e das lágrimas rapidamente obteve determinação em ficar boa. Da mastectomia até o dia em que enviou a carta ao hospital, ela afirma se considerar uma pessoa de sorte, mesmo com todo o processo difícil de queda de cabelo, quimioterapia, leucopenia, mutilação e 20 quilos a mais. Ao perder seu convênio médico, Maria de Fátima se viu obrigada a recorrer ao tratamento oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Depois de muito procurar chegou ao Hospital da Lagoa, onde atua o psiquiatra e monge budista Alcio Braz. Vários médicos a atenderam. Ao receber o diagnóstico de depressão, o que considerou mais um 'problema' ao longo do tratamento, Maria conheceu Braz.
Na carta ela relata: "Além de todo o tratamento convencional, temos reuniões para meditação com orientação do doutor Alcio. No começo achei uma coisa estranha, mas aos poucos fui deixando de me cobrar, apenas sigo a voz cadenciada que me orienta na expiração e inspiração, no relaxamento do meu corpo, na liberdade da minha mente. Assim fico bem, entramos em harmonia com o que, muitas vezes, queremos deixar de lado e negar que exista como se isto fosse possível. É uma tranqüilidade difícil de ser conquistada pela falta de hábito, mas completamente bem-vinda quando nos permitimos ser como as águas de um rio que corre mansa e transparente." A administradora reconhece que foi difícil acreditar o que vivenciava por meio do SUS. "Pagamos por isso, mas a situação de um sistema de saúde precário não nos perguntará se estamos bem ou não, se temos ou não temos 'direitos'. Nessa hora, médicos (sem infra-estrutura para fazer um trabalho digno e o fazem independentemente de qualquer coisa) e pacientes, juntos, vestem uma roupa branca e gritam pela paz e por socorro. Tomara que alguém nos ouça."
Assim como Maria de Fátima, inúmeros pacientes têm se beneficiado do método implantado no Hospital da Lagoa como mais uma alternativa ao tratamento de doenças, como o câncer. Em entrevista ao Diário da Região, Braz, que é chefe do Serviço de Saúde Mental do Hospital da Lagoa, conta como implementou, há 10 anos, a meditação no SUS. Ele afirma que uma das prioridades é o acolhimento de todas as necessidades dos usuários do sistema, não só as estritamente médicas, mas também as necessidades espirituais, psicológicas e sociais. "Quaisquer problemas de saúde derivados do estresse, ou piorados por ele, se reduzem com a prática regular da meditação."
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 | Meditação é aliada para ter vida e relações melhores Monge Eido Soho. Esse é o outro 'nome' do psiquiatra, mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Alcio Braz. Além de ser chefe do Serviço de Saúde Mental do Hospital da Lagoa, ele é responsável pelo Templo Zen do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Foi por conhecer os benefícios da meditação que, em 1997, Braz decidiu inseri-la aos tratamentos médicos. Confira a seguir entrevista com o especialista.
Diário - O que é, como funciona e como surgiu a idéia de implementar terapias alternativas aos pacientes? Alcio Braz - Normalmente, chamamos de "terapias alternativas" quaisquer abordagens terapêuticas diferentes da medicina, fisioterapia e psicologia tradicionais ensinadas nas faculdades do Ocidente. A idéia de implementar algumas dessas técnicas de tratamento e promoção da saúde no Hospital da Lagoa, um hospital federal da rede do SUS na zona sul do Rio de Janeiro, surgiu a partir da constatação da necessidade de encontrar outras maneiras de ajudar os pacientes além das medicações e métodos tradicionais, já que nem todos se beneficiavam inteiramente desses métodos. Além disso, dentro da Política Nacional de Humanização do SUS uma das prioridades é o acolhimento de todas as necessidades dos usuários do sistema, não só as estritamente médicas, mas também as necessidades espirituais, psicológicas e sociais.
Diário - Na sua opinião qual a importância da meditação na cura de doenças? Quais males seriam mais 'facilmente' curados por meio da meditação? Braz - Existem várias técnicas ou métodos de meditação. Em nossa prática usamos uma adaptação da meditação zen budista para os fins de promoção da saúde física e mental. Nosso método consiste de uma focalização da respiração e da postura física, acarretando relaxamento consciente que favorece a aceitação das realidades físicas e psíquicas, diminuindo a ocorrência de problemas derivados de estresse crônico ou agudo, lutos mal resolvidos e doenças negadas, entre outros. Uma melhor aceitação da realidade leva à melhor aceitação e aderência aos tratamentos tradicionais, o que aumenta a tolerância aos efeitos colaterais dos medicamentos e aumenta sua eficácia. Quaisquer problemas de saúde derivados do estresse, ou piorados por ele, se reduzem com a prática regular da meditação. Outro benefício relatado pelos praticantes é a melhora dos relacionamentos interpessoais.
Diário - Por que algumas pessoas têm imensa dificuldade em meditar? Braz - Em geral é uma dificuldade mais imaginária que real. Qualquer pessoa que buscar um instrutor qualificado para a prática e se dispuser a dedicar alguns minutos de seu dia para meditar será apto à meditação. As pessoas tendem a imaginar a meditação como algo esotérico, místico, iniciático, enfim, algo para escolhidos, iluminados. Esse é só um dos muitos mitos sobre a meditação, estimulados às vezes pelos que buscam lucrar com a ingenuidade e a carência de informações alheias. Para algumas pessoas há dificuldades em relação à postura e consciência corporal e falsas idéias sobre a meditação como, "parar de pensar" ou coisa religiosa, ou de uma religião exótica, o budismo. Na verdade não é preciso ser budista para meditar, nem sequer conhecer o budismo ou acreditar num personagem chamado Buda. A meditação não é uma prática religiosa no sentido sectário. É uma prática de consciência que tem a ver com a espiritualidade, tenha a pessoa qualquer religião, seja agnóstica ou atéia.
Diário - O que o senhor observou nos pacientes após implementar a meditação como aliada aos tratamentos médicos? Braz - Melhora expressiva e rápida na capacidade de relacionamentos mais saudáveis, diminuição da ansiedade crônica, abertura maior para a realidade. No geral, aceitação maior de seu estado e dos tratamentos.
Diário - O que outros hospitais e/ou clínicas devem fazer caso queiram seguir o exemplo do Hospital da Lagoa para implementar terapias alternativas? Braz - O primeiro passo importante é identificar os recursos disponíveis no próprio hospital ou na região. Às vezes, desconhecemos pessoas habilitadas em terapias e práticas alternativas, como meditação, tai-chi, ioga, entre outras, que existem em nossos próprios locais de trabalho ou na comunidade em volta. O segundo passo é procurar centros onde profissionais ou voluntários das instituições ou comunidades possam ser treinados para estabelecer intercâmbio de experiências e modelos.
Diário - Qual a importância da busca pelo autoconhecimento e da meditação para evitar doenças? Braz - O ser humano não pode evitar três realidades: envelhecimento, adoecimento e morte. O autoconhecimento por meio da prática da meditação pode trazer a capacidade de aceitar essas inexoráveis realidades, cuidar o melhor possível de si mesmo, dos outros e do meio ambiente. Assim, tornar o mundo um local menos difícil de viver.
Diário - Como o senhor trata seus pacientes, há algum procedimento que vá além do tradicional, convencional, pregado pela medicina ocidental? Braz - Pessoalmente costumo recomendar aos meus pacientes uma vida que inclua sono suficiente, pouco álcool ou cigarros, nenhuma droga ilícita, exercícios físicos regulares (do tipo natação, corrida ou bicicleta - aeróbicos - 3 a 4 vezes por semana, 30 a 50 minutos de cada vez, com orientação profissional), uma prática tipo ioga, tai-chi ou alongamento, uma prática de meditação ou espiritualidade, sessões semanais de acupuntura ou shiatsu, alimentação moderada, relacionamentos afetivos e sexuais saudáveis... a lista é conhecida de todos, mas pouco praticada. Acho que muitos de nós achamos que somos eternos, que um dia teremos tempo de começar tudo isso... mas tempo é interesse e saber dar prioridade ao que é prioritário.
Diário - Na sua opinião, qual a função da espiritualidade nos processos de cura ou adoecimento? Braz - Hoje, já se sabe que muitas doenças começam com mal-estar espiritual, decepção ou perda do sentido da vida, que levam à depressão, à queda da imunidade, aos comportamentos autodestrutivos... A cura ou pelo menos o controle dos sintomas das doenças incuráveis começa com a cura espiritual. Fora do Brasil, os profissionais de saúde das metrópoles ocidentais já têm noção disso, e mesmo aqui já há iniciativas, como os ambulatórios da chamada Medicina Integrativa, apoiada inclusive pelo Ministério da Saúde. Mas, ainda são iniciativas pequenas diante do universo da medicina e das outras esferas de cuidado da saúde tradicionais.
Diário - O senhor tem estudos sobre os resultados obtidos no hospital? Braz - Estão em curso estudos sobre a melhora da qualidade de vida dos pacientes participantes em nosso Hospital. Devem estar finalizados no segundo semestre deste ano, mas os resultados prévios indicam melhora de 80% na sensação subjetiva de bem-estar dos pacientes.
Diário - O que sugere que as pessoas adotem no dia-a-dia como prevenção? Quais recursos podemos usar para nos tornarmos melhores física, emocional e espiritualmente? Braz - Além do já citado, acrescento que a capacidade de ficar em silêncio, de ouvir a si mesmo e aos demais, de aumentar a delicadeza consigo mesmo, com seus relacionamentos e seu mundo é um fator de prevenção de doenças e manutenção da saúde. Sei que é difícil fazer silêncio e que todos tendemos a achar que sabemos muito sobre tudo. Mas, é só olhar para o estado atual do mundo e da sociedade para ver que nossas certezas são fracas.
Diário - O senhor, além de médico, é monge? Pode contar um pouco sobre sua história? Braz - Me formei em Medicina na UFRJ em 1979, aos 23 anos. Já meditava naquela época, mas só após uma viagem de estudos ao Japão, em 1992, passei a meditar dentro da tradição budista zen. Após períodos de estudos em Nova York, em um centro zen de lá, acabei por conhecer o mestre Ryotan Tokuda, monge zen no Rio. Fui ordenado inicialmente em 1995, com ordenação completa em 2001. Desde 1995, coordeno um centro de meditação zen no Rio e desde 1997 iniciamos as práticas de meditação no Hospital da Lagoa. Há mais sobre a prática no site www.sanghazen.com.br, onde também há meditações orientadas. | | |