a respiracao

A RESPIRAÇÃO RESPIRAÇÃO [1] “Aquilo que chamamos 'eu' não é mais do que uma porta de vaivém que se move quando inalamos e quando exalamos”.

Quando praticamos zazen, nossa mente sempre segue a respiração Quando inalamos, o ar entra em nosso mundo interior. Quando exalamos, o ar sai para o mundo exterior. O mundo interior não tem limites e o mundo exterior também é ilimitado. Nós dizemos “mundo interior” e “mundo exterior”, mas, na verdade só há um único mundo. Nesse mundo sem limites, a garganta é uma espécie de porta de vaivém. O ar entra e sai como alguém passando por uma porta de vaivém. Se você pensa “eu respiro”, o “eu” está a mais. Não há um você para dizer “eu”. O que chamamos “eu” é apenas uma porta de vaivém que se e move quando inalamos e exalamos. Ela simplesmente se move, eis tudo. Quando sua mente está pura e calma o suficiente para seguir esse movimento, não há nada: nem “eu”, nem mundo, nem mente, nem corpo. Só uma porta que vai e vem.

Assim, quando praticamos zazen, tudo o que existe é o movimento da respiração e, no entanto, estamos cônscios desse movimento. Não devemos nunca nos distrair. Mas estar consciente do movimento não significa estar consciente do eu pequeno, e sim da nossa natureza universal, ou natureza de Buda. Esta consciência é muito importante porque em geral somos unilaterais. Nossa compreensão habitual da vida é dualista: você e eu, isto e aquilo, bom e mau. Na realidade, tais discriminações são, elas próprias, a consciência da existência universal. “Você” significa estar consciente do universo na forma de você, e “eu” significa estar consciente do universo na forma de eu. Você e eu somos portas de vaivém. É necessário este tipo de compreensão; porém, nem sequer deveria chamar-se compreensão já que é, isto sim, a verdadeira experiência da vida través da prática do Zen.

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Assim, quando você pratica zazen, não há idéia de tempo e espaço. Você pode dizer: “Começamos o zazen neste recinto às quinze para as seis”. Portanto, você tem alguma idéia de tempo (quinze para as seis) e alguma idéia de espaço (neste recinto). Na verdade, o que você está fazendo é apenas sentar-se cônscio da atividade do universo. É tudo. Neste momento, a porta de vaivém se abre numa direção, e no momento seguinte ela se abrirá na direção oposta. Momento a momento. cada um de nós repete essa atividade. Aí não há idéia nem de tempo nem de espaço. Tempo e espaço são um. Você pode dizer: “Preciso fazer algo hoje à tarde”. Mas, na realidade, não há “hoje à tarde”. Fazemos uma coisa depois da outra. Eis tudo. Não existe um tempo como “hoje à tarde” ou “uma hora” ou “duas horas”. À uma hora você vai almoçar. O próprio ato de almoçar é à uma hora. Você estará em algum lugar, mas esse lugar não pode ser separado de “à uma hora”. Para quem realmente aprecia sua vida, eles são a mesma coisa. Mas quando ficamos aborrecidos com a vida, podemos dizer: “Eu não devia ter vindo a este lugar. Teria sido melhor ir a outra parte para almoçar. Este lugar não é muito bom”. Na sua mente, você criou uma idéia de lugar desvinculada do seu tempo presente.

Ou você pode dizer: “Isto é mau, eu não devo fazer isto”. Na verdade, quando diz “eu não devo fazer isto”, você está fazendo um não-fazer nesse preciso momento. Portanto, não há escolha para você. Quando você separa a idéia de tempo e de espaço, parece que há alguma escolha; mas, na realidade você tem de fazer algo ou tem de fazer um não-fazer Não fazer algo é também fazer alguma coisa. Bom e mau existem só na sua mente. Por isso você não deve dizer: “Isto é bom”, ou “isto é mau”. Em vez de “mau”, você deve dizer “não-fazer”. Se você pensa “isto é mau”, estará criando confusão para si mesmo. Assim, pois, na esfera da religião pura não há confusão de tempo e espaço, de bom ou mau. Tudo o que se tem a fazer é simplesmente executar as coisas tal como se apresentam. Faça alguma coisa! Seja o que for, devemos fazê-lo, mesmo que se trate de um não-fazer. Devemos viver neste momento. Assim; quando nos sentamos, concentramo-nos em nossa respiração, nos tornamos uma porta de vaivém e fazemos o que deve ser feito, algo que temos de fazer. Isto é prática do Zen. Nesta prática não há confusão. Se você estabelecer este modo de vida, não haverá confusão de nenhuma espécie.

Tozan, um famoso mestre Zen, disse: “A montanha azul é o pai da nuvem branca. A nuvem branca é o filho da montanha azul. O dia todo eles dependem um do outro, sem que um seja dependente do outro. A nuvem branca é sempre a nuvem branca. A montanha azul é sempre a montanha azul”. Eis uma pura e clara interpretação da vida. Pode haver muitas coisas como a nuvem branca e a montanha azul: homem e mulher, mestre e discípulo. Dependem um do outro. Mas a nuvem branca não deve ser importunada pela montanha azul. A montanha azul não deve ser importunada pela nuvem branca. Elas são totalmente independentes e, não obstante, dependentes. É assim que vivemos e é assim que praticamos zazen. Quando nos tornamos verdadeiramente nós mesmos, nos tornamos somente uma porta de vaivém: somos inteiramente independentes e, ao mesmo tempo, dependentes de todas as coisas. Sem ar não podemos respirar. Cada um de nós está no centro de miríades de mundos. Estamos no centro do mundo, sempre, momento a momento. Assim, somos completamente dependentes e independentes. Se você tem este tipo de experiência, este modo de existência, você tem absoluta independência; não será importunado por coisa alguma. Portanto, quando você pratica zazen sua mente deve estar concentrada na respiração. Este tipo de atividade é a atividade básica do ser universal.

Sem esta experiência, sem esta prática, é impossível atingir a plena liberdade.

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RESPIRAÇÃO EM ZAZEN [2] Respirar no zazen é natural e baseia-se em seu próprio ciclo respiratório. De uma maneira geral, a freqüência normal de nossa respiração é de dezesseis por minuto. Para aqueles mais experientes em sentar, a freqüência diminui para, talvez, cinco ou seis por minuto, ou, para aqueles que vêm se sentando há muitos anos, pode chegar a duas ou três por minuto, às vezes até menos. Contudo, se você tentar forçar sua respiração a tornar-se mais lenta, sua respiração fica esquisita e seu sentar torna-se muito desconfortável. Assim, para melhorar sua respiração, tente “estreitá-la”. Quando digo “estreitar sua respiração”, quero dizer que quando você expirar, expire menos do que você habitualmente expira. Não tente aumentar o tempo de sua expiração imediatamente, apenas tente expirar uma quantidade levemente menor. Estreite a corrente de ar e respire com sua freqüência natural. Quando você inspirar, não inspire muito ar de uma só vez e tente inspirar uma quantidade levemente menor. De novo, não tente aumentar a duração de sua respiração rapidamente. Ao respirar desta maneira, mais ar é retido em seus pulmões, ficando mais fácil respirar. Em conseqüência , sua respiração tornar-se-á mais lenta naturalmente.

Respirando dessa maneira, você ficará mais confortável; ficando mais confortável, você se sentará melhor; sentando-se melhor, sua respiração torna-se mais lenta. Quando sua respiração torna-se mais lenta, ela também fica mais profunda. Ao respirar desta maneira, eventualmente você começará a experimentar o gosto muito sutil da respiração.

Ao respirar mais longa e profundamente, a transição da inspiração para a expiração tornar-se-á mais suave. O trajeto do ar circulando para dentro e para fora será algo com a forma de um ovo. Seu respirar circulará suavemente ao longo de um circuito oval, para dentro e para fora. Quando você praticar este tipo de respiração, você encontrará um prazer incomensurável simplesmente respirando em zazen.

A respiração deve vir da parte inferior do abdômen, o hara. Mas não force a respiração para baixo; este é o modo errado. Em vez de forçar a respiração para baixo, force levemente a parte inferior de seu abdômen para a frente enquanto você inspira e, então, enquanto você expira, deixe a parte inferior de seu abdômen afundar para dentro. Quando você inspira, ela vai para fora; quando você expira ela vai para dentro. Se você tentar forçar o ar para baixo, você comprime o diafragma e os músculos abdominais, o que pode provocar dor ou uma tensão ou esforço desagradável naquela área. Não deve haver nem tensão nem esforço no seu estômago enquanto você respira. Ao praticar desta maneira, eventualmente você experimentará uma respiração profunda, tranqüila e natural em seu abdômen inferior.

Quando você senta, seu corpo, respiração e mente harmonizam-se e quando sua respiração torna-se mais lenta, a mente também se acalma. Quando isto acontece, um sentimento unificado, confortável, é bastante natural. Por favor, não seja apressado. Leve o tempo que precisar e diligentemente pratique esta respiração. Você deve adquirir esta experiência de você mesmo, praticando esta respiração.

O processo de unificação do corpo, respiração e mente não ocorrerá da mesma maneira em cada pessoa. Ao inspirar, seja um com a sua respiração. Ao expirar, seja um com a sua respiração. Cada um de vocês tem que encontrar seu próprio caminho para conseguir esta integração. Esta é a condição fundamental do zazen.

[1] Suzuki, S., Mente Zen, mente de principiante. São Paulo: Palas Athena, 1994. 5ª Edição, 2004. p.27-29.
[2] Traduzido de Osaka, K. Breathing in Zazen in Maezumi, T & Glassman, B. On Zen Practice. Boston; Wisdom Publications, 2002.
p. 41-42.