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Notas da Aula 2 do Curso de Introdução ao Darma de Buda Shakyamuni – 02 e 03/03/2016

30/03/2016

Aula 2 – Marcos Históricos

1. Não é possível conceber um movimento espiritual isolado no tempo e no espaço. Qualquer nova tentativa empreendida pelo espírito humano a fim de penetrar mais a fundo nas questões concernentes à vida e morte é um elo numa corrente ininterrupta. Daí não podermos falar em Buda ou no budismo primitivo sem determinar antes o ponto em que se encontrava a cultura ou culturas nas regiões onde ele nasceu e adjacências, hoje incluídas na Índia e no Nepal.

2. Sidarta cresceu numa região onde os brâmanes ainda não exerciam poder preponderante: no séc. V a.C. nessa região ainda predominavam os cultos solares, e os chefes guerreiros da casta Kshatrya, que lutavam em surdina para não serem desapossados de sua autoridade pelos brâmanes, inclinaram-se naturalmente em favor das idéias do Buda, ele mesmo um Kshatrya, que tendiam a enfraquecer a casta teocrática rival.

3. O budismo não consiste, portanto, numa heresia, nem sequer na extensão ou renovação do bramanismo, mas sim num desenvolvimento paralelo de doutrinas, com forte influência recíproca. E na doutrina budista que foi codificada no século II d.C. podem ser percebidos traços do bramanismo antigo, assim como no hinduísmo do século VI d.C. vemos um tipo de bramanismo “budizado” (Maurice Percheron).

4. A história das culturas hindus começa no terceiro milênio antes de Cristo, com o estabelecimento de uma grande civilização urbana, a cultura de Harapa e Mohenjo Daro. Figuras mostram indivíduos sentados com pernas cruzadas diante de fogueiras, mas sem decifrar a escrita dessas culturas não podemos saber o que praticavam.

5. No início do segundo milênio antes de Cristo, populações arianas, vindas possivelmente do Cáucaso, começaram a penetrar no Vale do Indus, destruindo as cidades e submetendo os drávidas, primitivos moradores da região. Sua religião original baseava-se no culto de forças da Natureza, que pouco a pouco em alguns lugares foi evoluindo para a concepção de um princípio absoluto, a que deram o nome de Brahman. Sua evolução religiosa pode ser seguida através do estudo dos hinos sagrados ou Vedas, e dos tratados filosóficos, ou Upanishades, textos básicos do que viria a ser chamado pelos ocidentais de Hinduísmo.

6. Ao encerrar-se o período chamado dos Vedas (os Livros do Saber), por volta do ano 1000 a.C., as populações arianas foram se deslocando para o vale do Ganges e se misturando com as populações locais, já com a organização social em 4 castas básicas e muitas subcastas e os sem-casta. Os brâmanes compunham a casta mais privilegiada, e só por meio deles era possível obter-se uma vida futura feliz, com seus rituais e sacrifícios. O clã onde nasce Siddharta era provavelmente nativo da região de Kosala, na parte próxima ao Himalaia, e apesar de vassalos do reino de Kosala, já organizado nos moldes bramânicos, ainda era um clã praticante da antiga religião solar. Buda usa várias vezes metáforas com o Sol, a Clara Luz, etc., e não usa os termos bramânicos em suas falas.

7. Dois pólos opostos caracterizavam o Bramanismo naquele momento: Atman e Brahman. (v. pps. 9 e 10 de “Buda e o Budismo”, de Maurice Percheron, Ed. Agir, 1994). Os brâmanes ensinavam a crença nos deuses e a doutrina das vidas sucessivas a que todos os seres estavam submetidos, a transmigração ou metempsicose ou reencarnação. Todo ser possuiria uma alma, ou atman, que se reencarnaria sucessivamente nas mais diversas formas, segundo a natureza dos atos praticados nas vidas anteriores, o karma. Essa cadeia de reencarnações – samsara – era considerada um mal a que o indivíduo devia escapar, recorrendo à fé nos deuses e brâmanes, seus representantes. No Vedanta se estabelece que a libertação desse ciclo ocorre quando atman se funde no brahman, e nas práticas indianas isso culmina nas práticas devocionais do tipo shivaíta ou de recitação dos nomes sagrados.

8. Por volta do século VI a.C., as regiões que hoje compõem a Índia entram num período de desenvolvimento material, com a formação de reinos que substituem as cidades-estado, fortalecendo o estado monárquico e criando uma atmosfera mais livre e aberta, que possibilitou o surgimento de uma série de pensadores que criticaram abertamente a ortodoxia bramânica e/ou pregaram novas idéias e sistemas.

9. Da casta dos Kshatryas surgiram ascetas, iogues, que pregavam doutrinas variadas, como as dos Jainistas e a doutrina dos Sankhyas, que pregava ser o mundo composto por dois princípios originais: o princípio inferior, Prakriti, a matéria, e o princípio espiritual. Não havia nenhum Brahman, apenas uma multidão de almas eternas presas nos grilhões da matéria, transmigrando infinitamente. A libertação viria pelas práticas ascéticas e pela meditação.

10. A idéia religiosa da Índia, de origem indo-iraniana e talvez também mesopotâmica, vê o seu centro de gravidade se deslocar do exterior para o interior; a aliança entre o homem e a divindade cede lugar à preocupação pessoal com o futuro da alma. Os inimigos que cumpria vencer estavam dentro, não fora. Os brâmanes não são mais necessários.

11. O Buda é o que mais bem sucedido foi na criação de um método de libertação e na formulação da Sabedoria que esse método revela. O Darma enquanto movimento religioso no começo só atraiu indivíduos heterodoxos, conquistados um a um, e só assumiu um caráter aberto de movimento de reforma quando o Buda morreu e passou a ser apresentado como uma emanação divina encarnada num personagem de prestígio inigualável. A lenda apoderou-se de sua vida terrestre, aparentou-a com os deuses existentes, e encheu-a de milagres, sendo só assim que a palavra do Perfeito logrou tocar as massas.

12. Do século VI a.C. ao século I d.C., o Buda era encarado como um Mestre, concebido como um grande homem, tendo a veneração popular se transformado em um culto ao Buda, e o Dhamma/Dharma vai se tornando afirmação doutrinária e interpretação escolástica, começando a surgir textualmente em páli, sânscrito e sânscrito híbrido budista. (v. pps. 15 a 19 do “Budismo” de Gard).