Outros conceitos centrais do Budismo

Dukkha
Muitas vezes a primeira Nobre Verdade proferida por Buda Shakyamuni após sua iluminação é traduzida como "A vida é sofrimento", ou "Existe sofrimento", sempre indicando que a natureza da vida é sofrimento. Em um primeiro momento esse ensinamento pode parecer demasiado pessimista e deprimente. Mas isso se deve à tradução simplista do termo, na verdade a primeira Nobre Verdade diz respeito à Dukkha, que não tem uma tradução literal, é todo um conjunto de idéias.

De uma maneira geral, Dukkha diz respeito ao nosso condicionamento de vida dentro de experiências cíclicas, onde nos alternamos entre boas experiências (felicidade) e más experiências (sofrimento). Todos os seres buscam a felicidade e procuram se afastar do sofrimento, no entanto nessa busca de felicidade e dentro da própria felicidade encontrada estão as sementes de sofrimentos futuros.

Podemos pensar da seguinte maneira: sofremos porque não temos algo; sofremos porque conseguimos algo e temos medo de perder; sofremos porque temos algo que parecia bom, mas agora não é tão bom assim; e sofremos porque temos algo que queremos nos livrar e não conseguimos. Podemos ver então que mesmo que tenhamos sucesso na nossa experiência de felicidade, ela mesmo pode se tornar causa de uma experiência de sofrimento. Além disso, as experiências são impermanentes, as ideias, os conceitos, os pensamentos, todos são impermanentes, mudam. Por isso dentro da experiência de felicidade existe a causa de uma experiência de sofrimento, pois ela também é impermanente e irá mudar.

Então, Dukkha representa todo esse ciclo, e a insatisfação que nunca será saciada enquanto o seguirmos.

Anatta
Anatta (Pali) ou Anatman (Sânscrito) é a doutrina Budista da inexistência de um "eu" permanente e imutável.

De acordo com o Budismo, todas as coisas componentes ou condicionadas são impermanentes e estão em constante estado de fluxo. Segue-se daí a idéia de "não-eu" (Anatta), que nega a existência de uma essência pessoal imutável e independente - em oposição à doutrina hinduísta de Atman.

Os budistas defendem que a noção de um "eu" permanente é uma das principais causas das guerras e conflitos na história humana, e que vivendo de acordo com a noção de Anatta ou não-eu podemos ir além de nossos desejos mundanos. Na linguagem cotidiana fala-se em "alma", "eu" ou "self" nos meios budistas, mas sempre com o entendimento de que nós somos interdependentes com outros em vez de personalidades independentes imutáveis. Na morte corpo e mente se desintegram, mas se a mente desfeita contém quaisquer resíduos kármicos causa uma continuidade de consciência que reverbera em uma mente nascente em outro ser (e.g. um feto em desenvolvimento). Portanto o ensinamento budista é de que seres renascidos não são completamente distintos nem completamente iguais a seus antecessores.

Esta noção contrasta com o conceito hinduísta de Atman, que seria o que reencarna, representando a mais elevada centelha divina em cada ser humano. O pensamento budista nega essa idéia. Tanto o Budismo quanto o Hinduísmo concluem que há continuidade entre vidas, no entanto suas doutrinas sobre o que continua de uma vida para outra divergem; em um há um "eu" transcendente (Atman), no outro há apenas tendências e processos mentais que renascem.

Anicca

Compreender a impermanência é de extrema importância dentro do contexto budista. Assim como as quatro nobres verdades são reconhecidas por todas as escolas budistas, a impermanência é um ensinamento presente em todas as linhagens.

Basicamente, todos os fenômenos são impermanentes. Entenda-se por fenômeno qualquer idéia de existência, seja de um eu, de um outro, de um objeto, de uma experiência. Os fenômenos são impermanentes devido à sua natureza composta, ou seja, existem a partir de causas e condições. Quando as causas e condições cessam, o fenômeno cessa também.

A noção de impermanência, (anicca), constitui o fundamento do ensinamento do Buda, e foi esse insight inicial que empurrou o Bodisatva a deixar o palácio em busca do caminho pela iluminação. A impermanência, na visão Budista, compreende a totalidade da existência condicionada, variando numa escala que vai do cósmico ao microscópico. No ponto extremo dessa escala, a visão do Buda revela um universo com dimensões imensas evoluindo e se desintegrando em ciclos repetitivos sem um princípio que possa ser determinado – “muitos ciclos cósmicos de contração, muitos ciclos cósmicos de expansão, muitos ciclos cósmicos de contração e expansão”. No ponto médio dessa escala, a marca da impermanência se manifesta na nossa inescapável mortalidade, essa nossa condição de seres atados ao envelhecimento, enfermidade e morte, possuidores de um corpo que está sujeito “a ser gasto e pulverizado, à dissolução e desintegração”. E no outro extremo da escala, o ensinamento do Buda revela a impermanência radical que só pode ser observada através da atenção prolongada daquilo que é experimentado no momento presente: o fato de que todos os elementos do nosso ser, corporal e mental, estão num processo contínuo, surgindo e cessando em rápida sucessão, de momento a momento, sem nenhuma substância persistente subjacente. Durante a própria observação eles estão sujeitos à “destruição, desaparecimento, decadência e cessação".